Há algumas semanas um evento organizado
pela Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, que tinha como tema “Turismo sexual
como tabu”, levantou polêmica dentro do feminismo. Com as olimpíadas chegando, é visível o
aumento da procura por profissionais do sexo por turistas, desta forma,
abriu-se um leque de discussões com posicionamentos antagônicos: De um lado, feministas que acreditam ser a
prostituição empoderadora e uma profissão como qualquer outra, e do outro,
feministas que a enxergam como o capitalismo se apropriando do patriarcado para
gerar lucro, através da exploração dos corpos das mulheres, que são maioria
neste meio.
Ultimamente vieram à tona muitas
histórias de mulheres classe média alta que “escolheram” a prostituição, sendo
frequentemente usadas por ativistas para legitimá-la. Em 2012 o deputado
federal Jean Willys (PSOL-RJ) criou o Projeto de Lei Gabriela Leite, que visa a
regulamentação da prostituição como uma profissão, com o objetivo de oferecer
melhores condições de trabalho para estas mulheres. No entanto, é necessário
analisar algumas questões, como fez Maria Gabriela Saldanha ao destrinchar
ponto por ponto do projeto neste artigo.
Janaína Weba (nome fictício),
prostituta há mais de 15 anos, mostra a sua visão sobre o sexo como mercadoria.
Em entrevista conta que entrou neste
meio quando foi mãe pela primeira vez e tentou sair dele inúmeras vezes, porém os
empregos que encontrava não pagavam o suficiente para sustentar seus três
filhos, fazendo com que ela precisasse voltar a se prostituir. Apesar de nunca
ter sido agredida, afirma que a profissão é muito cansativa e exploradora: “Ficamos noites sem dormir,
tem programas que demoram, nos deixando muito cansadas, sem contar que é muito
ruim ficar com quem não queremos por dinheiro”. Ainda afirmou que já deixou de
fazer programas pois os clientes recusaram-se a usar preservativos e que está
em busca de outro emprego.
Esta é a realidade da maioria das mulheres em situação de
prostituição, segundo pesquisa realizada pela Faculdade de Ciências Humanas da Fundação Mineira de Educação
e Cultura (FUMEC), no Brasil 59% das prostitutas são chefes de família e
sustentam os filhos sozinhas, 45,6% só estudaram até o primeiro grau e 24,3%
não concluíram o ensino médio. Portanto, a maioria se prostitui por
encontrar ali o único meio de se manter, sendo obrigadas a acostumar-se com a
situação. Outro ponto a se considerar é
o fato de que a legislação brasileira é misógina, sempre relativizando casos de
machismo, sendo ingênuo pensar que as prostitutas terão seus direitos
assegurados por conta da PL.
Quando falam que a prostituição é
um trabalho como outro qualquer, ignoram que é um meio muito mais explorador e
que o consumidor da prostituição não busca comprar um serviço, mas apoderar-se
literalmente do corpo da mulher para realizar seus fetiches, utilizando-se da
vulnerabilidade socioeconômica de muitas. É necessário cobrar do Estado
mecanismos que permitam essas mulheres escolherem de verdade qual profissão
desejam seguir, oferecendo, por exemplo, bolsas, cursos profissionalizantes e
oportunidades de outros empregos, assim como discutir a naturalização da
submissão do corpo da mulher. Ao afirmarem que feministas abolicionistas são
conservadoras, desconsideram que antigo e conservador na verdade é o
patriarcado, que dá o direito ao homem de tratar o corpo das mulheres como
objeto.
Mais sobre o assunto: http://antigo.brasildefato.com.br/node/12236
Texto deste blog sobre pornografia: http://dizlua.blogspot.com.br/2015/11/hot-girls-wanted-e-parte-da-pornografia.html

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